Educadora americana, crítica dos testes padronizados de larga escala, fala sobre as políticas fundamentadas no
accountability.
A favor do diagnóstico
Para educadora, testes não podem ser mais importantes que o currículo
Beatriz Rey
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Diane Ravitch: aprovação nos testes não garante aprendizagem
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Em 2009, quando a educadora norte-americana Diane Ravitch terminou de
escrever o livro The death of the great American school system, seu
agente enviou o manuscrito a todas as editoras grandes daquele país.
Quinze delas o recusaram. Como justificativa, afirmaram que não havia
público para o assunto tratado por ela. Hoje, o livro é considerado um
best-seller pelo jornal The New York Times. Não por acaso: na década de
90, Diane Ravitch apoiou e ajudou a promover as políticas que envolvem
testes padronizados e bonificação por desempenho. Hoje, ela defende
exatamente o contrário.
No
blog
que escreve com a educadora Deborah Meier, Bridging Differences , ela
afirma que é contra o uso dos testes padronizados para punir ou
bonificar. "O que eu abandonei? A esperança de que a responsabilização
vai magicamente alcançar os fins nos quais acredito", escreve. Na
entrevista a seguir concedida por e-mail, ela afirma que as escolas
existem para abrigar adultos capacitados e formados para educar
crianças. E avisa: "o aspecto mais importante dessa interação não pode
ser substituído por tecnologia ou transformado em um processo mecânico
que pode ser medido ou aperfeiçoado por computadores".
Desde a publicação de seu livro, a senhora encontrou novos motivos para rejeitar o modelo de accountability e testes padronizados? Sim,
encontrei mais exemplos de fraudes em testes municipais, estaduais e em
escolas. E mais exemplos de como as pessoas tentam driblar o sistema.
Por exemplo, em junho de 2010, o Departamento de Educação de Nova York
revelou que os resultados dos exames estaduais foram inflacionados.
Então, eles reconfiguraram os números e identificaram uma queda
dramática no percentual de alunos que passaram nas provas. Os tão
alegados "ganhos históricos" da cidade de Nova York desapareceram, já
que os resultados
caíram para o patamar em que estiveram em 2002.
Apesar do investimento de centenas de bilhões de dólares em testes e
materiais, os avanços na última década do programa No Child Left Behind
foram pequenos - e certamente não fazem jus a todo o dinheiro investido
ou o tempo que poderia ter sido gasto com estudos. O outro efeito
negativo do movimento pela responsabilização é que políticos e
elaboradores de políticas públicas passaram a culpar as escolas e os
professores se os resultados não sobem e se eles não alcançam o patamar
de 100%. Mais professores serão demitidos com base nas provas e mais
escolas fechadas e substituídas por escolas geridas por instituições
privadas. O sistema de accountability expandiu uma demanda por punição, e
o alvo são os docentes, seus sindicatos, seu tempo de serviço e direito
de estabilidade no emprego e as escolas públicas.
Quais os principais problemas dos exames padronizados? Um
é que testam apenas habilidades e não conhecimento. Outro é que não
exigem a capacidade de pensar, mas sim de pensar para o teste. O maior
problema é que, atualmente, são mais importantes que o currículo e
acabaram se tornando um fim em si mesmos. Muitas crianças passam nas
provas, mas ainda não sabem ler ou fazer exercícios de matemática com
competência.
O artigo que a
senhora escreveu com outros especialistas identifica diversas falhas nos
testes padronizados. Qual modelo de avaliação é o mais exato? O
melhor método para medir a habilidade de um aluno é o próprio trabalho
desenvolvido por ele, não apenas um teste padronizado que pede a ele que
escolha uma de quatro opções. Uma medida melhor seria a qualidade da
redação do aluno, seus projetos de ciências, de pesquisa em questões de
história e a habilidade demonstrada para resolver problemas de
matemática.
Docentes e diretores
da rede municipal de Atlanta, na Geórgia, estão sendo acusados de
manipular os resultados das provas estaduais e de dar respostas aos
alunos. Há uma maneira de evitar situações como essa? A
superintendente de Educação de Atlanta se demitiu depois das revelações
de cola generalizada nos exames. Isso é inevitável quando você depende
altamente dos resultados, quando docentes e diretores sabem que podem
ganhar um bônus ou ser demitidos. O melhor jeito de evitar isso é parar
de atrelar altas expectativas às provas e usá-las apenas para propósitos
de diagnóstico, não para responsabilizar, bonificar ou punir.
É comum ver pessoas sem experiência em educação assumirem cargos importantes nos EUA. O que a senhora pensa disso? A
reforma promovida por leis corporativas e de negócios acredita que
qualquer pessoa pode ser um diretor ou um superintendente após poucas
semanas de treinamento. Estão usando o poder que têm para
desprofissionalizar a educação. Isso é errado e causará danos ao setor.
Quais perigos o modelo de accountability pode trazer a um país como o Brasil? É
um sistema destrutivo para a educação e para os valores que muitos
educadores e pais valorizam. Não se importa com conhecimento, ideais ou
caráter; o que importa é ler e saber matemática. A responsabilização
leva a uma filosofia em que o que importa é rotular as crianças com
números ou letras. Poucos serão vencedores, a maioria perderá. Aqueles
que não passam nas provas são estigmatizados, julgados, classificados e
considerados fracassados.
A
senhora dedica parte considerável de seu livro à questão do currículo.
Qual papel ele desempenha na melhoria da qualidade da educação? Muitos
educadores entendem que a educação é muito mais que aprender
habilidades básicas. Uma educação de qualidade prepara o aluno para
receber mais conhecimento, para ter uma carreira e para a cidadania.
Também prepara o estudante para interagir com a sociedade por toda a
vida, além de desenvolver o pensamento crítico para decisões que ele
deve fazer em sua vida. Um bom currículo escolar deve incluir ciências,
artes, história, línguas, educação física, saúde, matemática, literatura
e geografia. Mas esse currículo deve ser amarrado de tal maneira que as
crianças entendam que seus professores estão dedicados ao seu
desenvolvimento como seres humanos.
O modelo de escola do século 19 está fadado a desaparecer ou podemos reformá-lo? Se
você se refere àquele em que professores passam seu conhecimento a
alunos, penso que esse modelo está aqui para ficar. Se chegar a época em
que as crianças serão enviadas a um "centro de aprendizagem", para que
sentem em frente a um computador ou a uma TV para interagir com uma
máquina ou assistir a uma aula de um professor que nunca conheceram,
temo pelo futuro. As crianças precisam de contato humano. Precisam de um
gesto de apoio ou de palavras encorajadoras, não de uma tela que dite
atividades ou tarefas. As escolas servem a muitos propósitos, mas, acima
de tudo, existem para configurar o lugar em que adultos altamente
capacitados e bem formados educam crianças. O aspecto mais importante
dessa interação não pode ser substituído por tecnologia ou transformado
em um processo mecânico que pode ser medido ou aperfeiçoado por
computadores.